terça-feira, 8 de dezembro de 2009

o bebê quis sair


Uma mulher entrou em trabalho de parto em uma zona de alagamento. Foi resgatada por um helicóptero, que a levou até o Hospital Santa Joana. Eu estive no Hospital Santa Joana este ano, e encontrei o Silva na porta. Silva foi segurança no colégio onde eu estudei, agora recepciona mulheres gordas (como se diz lá na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim quando a mulher emprenha). Silva está vivo em minha lousa de lembranças tanto quanto o azul do portão de ferro. Quebrou vários galhos. Deixava a gente sair pra comprar a paçoca do seu João e nos entretinha com histórias enquanto obrigatoriamente tínhamos de esperar a mãe professora em dias de plantão. Um dia, a gente viu o Silva sem o traje formal, vestindo bermuda e tênis de surfista, e achou super engraçado. Imagina o que a mulher que entrou no helicóptero sentiu quando teve a intrépida certeza de que o filho decidira nascer naquele exato instante? Quando eu fui ao Santa Joana, eu também estava grávida (mas não de um bebê, grávida de mim). Estar grávida em um hospital, afinal de contas, é quase um pleonasmo (numa reprodução esgarçada de Daniel Dantas em Histórias de Amor Só Duram 90 Minutos).

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

sábado, 5 de dezembro de 2009

flamingoframboesa



grave as mágoas na areia, as alegrias na pedra

Essa coisa bonita veio daqui.

Foto: Alex Silva/AE

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

eu e meu fusca


Deu uma zica com carro lá em casa, nada que boas risadas não resolvam. Refleti que talvez estivesse na hora de comprar um. Descartei, de cara, ter uma dívida que sanaria mês a mês em aviltantes prestações. Deixei a ideia fermentando. Um dia, um ex-colega de redação contou que tinha comprado um fusca prateado. Inteiraço, peças originais, lindo o bichinho. Caro, claro. "Mas você acha outros ótimos pela metade do preço", me alertaram. Ora, um fusca está dentro do orçamento. Começou a saga: não tinha um que me escapava o olhar nas ruas, verde, azul, meio verde meio azul, marrom, vi de tudo e desejei todos. Espalhei para os taxistas e os motoristas do tráfego do jornal que estava querendo um. Ouvi que deveria parcelar um carro novo da marca tal, que fusca é para quem gosta de ficar consertando carro, que fusca roda 200 km com R$ 20 de gasolina. Até os desestímulos me deixavam com mais vontade de ter um. Depois de meses, eu encontrei. Um taxista me ligou dizendo que o sogro talvez topasse vender o seu. Fusca branquinho, único dono e seu nome é Vicente e é um doce de pessoa. Mas aí ontem um dos motoristas do jornal acenou pra mim lá de longe e disse: "Eu achei um fusca tão lindo, mas tão lindo, é verde escuro e fica numa esquina da Casa Verde. Toda vez que eu passo ali eu lembro que você queria um. Você não achou ainda, achou?". Não achei, eu respondi, e pensei que movimentar às vezes é muito melhor que achar.

Foto do flickr da manô

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

No Rio de Janeiro...


Caminhei de mãos dadas no calçadão
comi risoto com camarões fresquinhos na simpática Trattoria
comprei uma canga de turista e tomei sol em Ipanema
estiquei minha canga em Copabacana, vendo o sol se pôr
sentei no café do Copacabana Palace e ganhei três bolachinhas
vi os garotos jogando futebol na beira do mar
flagrei um casal feliz dizendo "toca aqui!"
fiquei besta com a quantidade de vendedores na praia
conheci um bistrô pra lá de charmoso chamado Zazá
tomei caldinho de peixe e comi pastel de Santa Clara em frente ao Largo do Machado
me encantei por uma árvore na lagoa (as sementes vieram na mala, na esperança de que ela cresça também por essas bandas)
testemunhei um padre maluco casar dois desconhecidos
e as bodas de Nicolas Taunay
bebi (alguns...) chopes no Jobi, derrubei (um) chope no Jobi e conheci a filhinha do Otto, no Jobi
me perdi nos espelhos da Confeitaria Colombo
me encontrei nos espelhos do 11º andar de um hotel no centro
acordei e dormi olhando o Cristo Redentor
perguntei o nome de alguns taxistas e ouvi boa música no carro de um deles, cujo nome não me recordo
cantei A Gente Esquece com a Teresa Cristina, na Lapa (embalada por duas deliciosas caipirinhas de maracujá)
usei, pela primeira vez, meu vestido florido de Nova Orleans
não mergulhei, mas mergulhei os pés nas águas geladas do mar azul, azul. E foi suficiente
No Rio
amei
amei assim como a menina amou o livro em Felicidade Clandestina, conto da Clarice Lispector

mais felicidade
menos clandestina.

e, dentro da mulher, vai sobrar a dúvida: será que ele compreende mesmo o tamanho disso?

(publicado originalmente no blog secreto das meninas da baia 63, em 27 de maio de 2008)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

os intermediários


Você acha que, da mesma forma como nos furtam ideias que ainda nem tivemos, eles fazem brotar na nossa cabeça umas palavras que nunca usamos? Quando eu era menina, uma vez estava jogando basquete na escola e "averiguar" começou a piscar na minha cabeça. Eu batia a bola, errava a cesta e pensava: que raios significa averiguar? E às vezes não te dá uma coisa, e você repete "significa" como um bebê que engole a palavra pela primeira vez? E aí, de tanto repetir, deixa de significar significa e vira, sei lá, batata, nem importa mais. Você lembra da nossa gargalhada no meio do fechamento por causa de uma foto do papa? Acha que alguém também sutilmente se encarrega disso, como os três rapazes que fincam a pá no forno quente, quente de matar formiga a metros de distância, e puxam de lá uma dezena de panetones cheirando a cassata italiana? Todo paulistano é da Mooca.

Foto: Romulo Ueda

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ieeÊêê


Calunguinha faz 1 ano hoje! Cumpleaños feliz!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ninho


Uns tempos depois que a gente mudou de casa, passei na frente e a porta estava aberta. Pedreiros trabalhavam na reforma há meses. Perguntei a um deles se podia entrar, lembro exatamente o jeito como eu disse com licença, moço, mas é que eu morei aqui 15 anos.
Ele deixou.
Não tinha mais aquela escadinha de tijolo que dava acesso à área de serviço, por onde todo mundo sempre entrava.
A cozinha não estava mais lá nem a sala nem o jardim nem o salãozinho.
A casa usava a mesma roupa, mas tinha sido drasticamente demolida por dentro, e eu não tinha ideia, não me foi concedido nem o mais relapso dos avisos prévios.
Procurei meu quarto, procurei meu terraço
Andei a casa toda e era como se fosse um fantasma, ninguém me notava ali.
De tudo, restou apenas uma coisa: a sala de tevê.
Lembra quantas vezes você sentou no sofá azul marinho com bolachas mergulhadas no café com leite?
Me traz uma pequena calma imaginar que todas as casas de todas as ruas de todos os mundos carregam tantas histórias bonitas.
Nunca contei para a família que a nossa casa não existia mais, mesmo que eu fosse uma perfeccionista das explicações e eles compreendessem como alguém que confere os gastos no extrato bancário, não adiantaria.
Saí de lá do jeito que a gente sai quando o passado ganha frescor de cachoeira: esquisito e feliz.
Acho que foi um presente da velha casa, essa nossa íntima despedida.
quer dizer, até hoje quando, durante o sono, sonho que estou em casa, é essa casa que aparece.
Desde então eu fiquei mal acostumada:
quero sempre mudar e encontrar as portas destrancadas, para o caso de estar ali de passagem e precisar entrar.
ora, acho que dos piores vícios não é.

Foto: não sei